domingo, fevereiro 05, 2006

Superdotação e princípios da inclusão / O Tempo

Belo Horizonte, 04 de fevereiro de 2006
O Ministério da Educação anunciou a liberação de R$ 2 milhões para a criação de centros de apoio a alunos superdotados em escolas públicas. As discussões giram em torno do valor e da necessidade de tal investimento. O censo escolar de 2004 apontou menos de 0,005% dos alunos como superdotados.
A celeuma deveria ser maior. Não somente esses estudantes, mas todos aqueles que apresentam necessidades educacionais especiais (crianças com algum tipo de deficiência, que moram nas ruas, que trabalham, de populações distantes ou nômades, crianças de minorias linguísticas, étnicas ou culturais, e de outros grupos desfavorecidos ou marginalizados) devem dispor de recursos para obter qualquer suporte extra a fim de assegurar uma educação efetiva, o que não vem acontecendo.
É preciso relembrar que há anos educadores procuram alternativas para minimizar as dificuldades de estudantes que não dominam conhecimentos básicos: concepção de número, problemas matemáticos simples, leitura e escrita, na tentativa de desenvolverem o aprendizado em todas as áreas do conhecimento.
As razões para as dificuldades de aprendizagem são inúmeras e diversas. Mesmo quem não vivencia o cotidiano escolar sabe que é uma questão de difícil solução.
Apesar das propostas e projetos colocados em prática pelo coletivo de professores, há uma série de barreiras: a falta de material específico e em quantidade satisfatória; espaços físicos sem mobiliário e recursos adequados; tempo e outras condições insuficientes para atualização do corpo docente e a impossibilidade de acompanhar estudantes de modo individualizado, em turmas com grande número de alunos sem equipe de apoio.
Educandos e educadores vivem um drama. Muitas vezes há até três turmas diferentes em uma. Tem-se, então, que trabalhar com a heterogeneidade. Em não havendo condições, o que fazer? Separá-los, formando grupos menores?
De antemão, sabe-se que ficam agrupados com pares que vivenciam problemas semelhantes, nas chamadas “turmas-projeto”, “turmas especiais”. Socializamse com outros estudantes apenas no recreio, no início e término das aulas, e em outras atividades que envolvem toda a escola.
Não há como desconsiderar que esse é um processo excludente, de segregação, portanto não é a solução.
O que está sendo colocado em prática pelo MEC, a criação de centros de apoio para estudantes com altas habilidades, se opõe a uma orientação consensual já registrada através das publicações do próprio ministério: o princípio de que escolas devem receber e acompanhar todas as crianças em seu desenvolvimento, independente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras.
Não é possível crer em um processo de inclusão que não leve em conta tanto a análise quanto as ações sobre os problemas de aprendizagem, que não se insira em um movimento amplo de luta e de transformação da sociedade.
E neste, como em qualquer outro contexto, o isolamento e a categorização são caminhos opostos. Partamos do princípio. Do princípio da inclusão.

JOSÉ MARIA THEODORO
Professor do ensino médio e fundamental, especialista em educação especial

2 Comments:

Blogger Marco Aurélio said...

Tudo bem?

Dê uma olhada por favor, no que eu disse sobre o sistema de cotas para alunos de escolas públicas e dê sua opinião.

Um Abraço

Marco Aurélio

12:25 PM  
Anonymous J.M.Theodoro said...

Concordo com você quando diz que o sistema de cotas é populista e mal formulado. Contudo, é preciso observar a situação das escolas públicas. No Enem raras tiveram média superior a 50%, enquanto quase todas escolas particulares obtiveram média. Tem-se, então, que criar uma política para alunos de escolas públicas. Mas, como fazê-lo sem cair na mediocridade populista?
J.M.Theodoro

7:40 PM  

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