sexta-feira, fevereiro 24, 2006

“Ah, que lobo bonzinho!”

Charles Perrault nasceu em Paris em 12/01/1628 e faleceu em 1703. Aos setenta anos publicou seus contos, muitos deles advindos de histórias contadas por camponeses. Em 1881 aconteceu a publicação do livro Contos de Perrautl. Há uma introdução bem interessante de P.J.Stahl.
Ele diz que aceitou a “espinhosa missão” de cuidar de uma menina de quatro anos por pouco menos de uma hora. Pegou na biblioteca um livro e começou a ler a história. No início a menina mostrou-se reservada, depois esbugalhou os olhos e, atenta, ouviu até o final: “O malvado lobo lançou-se sobre Chapeuzinho Vermelho e a comeu”.
Assim termina a história contada por Perrault, pois foram as amas-secas alemãs que trataram de suavizar o final, revertendo a situação, criando um caçador para salvar a menina e a velhinha. Stahl não suavizou nada ao contar a história, tratou de ler o conto tal qual o francês Perrault o escreveu. O lobo empanturrou-se. Ponto. A pequena ouvinte se entusiasmou e disse: “Ah, que lobo bonzinho!”. Por quê?
Ora, vamos aos últimos fatos.
Quando a mãe da pequerrucha chegou Stahl se queixou dizendo que a menina estava com a cabeça perturbada, et cetera, et cetera. A mãe provou a insignificância do canibal para a criança, pois durante todo o tempo ela aguardava ansiosamente o desfecho para verificar. O quê? Se o lobo comeu o bolo! Um bolo como aquele que a mãe havia lhe prometido. E o lobo não o comeu. Ele estava ali, inteiro, e a criança, embevecida, o olhava. Pois bem. Stahl aprendeu o que, às vezes, as pessoas demoram a aprender. Leitores ou ouvintes, só esperamos que “deixem intata a nossa parte no bolo”.
E está acontecendo algo estranho nos brasis. Estão comendo do nosso bolo, fazendo-nos de tolos, conclamando aos quatro ventos que existe por aí um “pai dos pobres” sendo que esse pai existe em nossa cultura há mais de mil anos. Procuramos trucidar um lobo, quando devíamos buscar a raposa. Ela é tinhosa, anda às soltas correndo de canto a canto do país e do mundo, nadando em tempo de ressaca. Que Capitu não nos ouça! Cada um com cada qual pensamento - quer seja criança, adolescente ou adulto. Fiquemos de olho. De olho no bolo! Se deixarmos, sobrarão apenas migalhas repisadas, recontadas.
Quanto à vovó e Chapeuzinho já se salvaram há muito. Perguntem às amas. Elas são fenomenais quando se metem a suavizar finais de histórias. Mas como é difícil encontrá-las!

Modesta Trindade Theodoro
anarquia2004@uol.com.br

1 Comments:

Blogger Nós professores said...

Este texto está para sair daqui, mas ele poderá ser encontrado no Google.

8:23 AM  

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