terça-feira, janeiro 03, 2006

Noite-e-dia

Belo Horizonte, 03 de Janeiro de 2006

Uma das personagens do livro “Noite & Dia”, de Virginia Woolf, Mary, via-se em um palanque, bastante segura do certo e do errado, desferindo pesado golpe nos inimigos.
Em sua fantasia, era bombardeada de ovos podres e dizia: “Que importa a minha pessoa em comparação com a causa?”. Quando ela se punha a falar aos membros do comitê, eles ficavam impressionados e, muitas vezes, uns contra os outros. Era a parte real da “coisa”.
Mary sentia grande sensação de poder e pensava: “... nenhum trabalho equivale em importância ou é tão excitante quanto o de fazer com que outras pessoas façam o que a gente quer que façam”. Contradição para ser estudada com afinco. Na fantasia, era a “causa” que importava.
Na realidade, o ser e o poder superavam a causa, além de haver o sentimento de desprezo pelas pessoas submissas às suas falas. A primeira situação lembra- me a tal “facada nas costas” – frase dita pelo presidente Luiz Inácio da Silva. A fantasia dos ovos podres dá força à causa para Mary. Espantosa similaridade! A segunda situação – excitação pela submissão, e consequentemente o desprezo – leva-nos a acreditar que a realidade é mais fétida do que os fictícios ovos podres.
A fantasia presidencial, a metafórica facada, não supera o que há de real e não dito em todo o processo nesses longos meses passados. Somente um presidente alienado não tomaria conhecimento de notícias veiculadas noite-e-dia em jornais do país e no clipping oficial.
A redoma não é inquebrantável. Estilhaços voarão se um ex-adepto da causa cansar de levar porretadas para proteger outrem. E, caso continuemos fazendo o que desejam os políticos de carteirinha, poderemos, desde já, abaixar as nossas cabeças e trabalhar mais e mais apenas para comer, e fenecer.
Prioridades existem, assim como reivindicações. Não as substituamos por outras que, por vezes perversas, são de tão pouca durabilidade que passam sem darmos conta de que fomos, mais uma vez, subtraídos.
Tentemos desmascarar o pensamento que não advém apenas de um trecho do livro de Woolf: “... nenhum trabalho equivale em importância ou é tão excitante quanto o de fazer com que outras pessoas façam o que a gente quer que façam”.
Modesta Trindade Theodoro
Professora