sábado, dezembro 17, 2005

De Bonner Para Homer

Crônica

O editor-chefe considera o obtuso pai dos Simpsons como o espectador padrão
do Jornal Nacional Por Laurindo Lalo Leal Filho*

Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da
mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta
matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.

Perfil. Ele é preguiçoso, burro e passa o tempo no sofá, comendo rosquinhas
e bebendo cervejaAlguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha
dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo
o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem
discussão.

Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do
funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio
de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem
dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora
juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP. Chegaram ao
Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.

A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa
um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem
suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a
se tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um
simpático "bom-dia", Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que
identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se
que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca
familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado
de Homer Simpson.
Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries
estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família
Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É
preguiçoso e tem o raciocínio lento.

A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome
mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson.
"Essa o Homer não vai entender", diz Bonner, com convicção, antes de rifar
uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não
compreenderia.

Pauta.
Na reunião matinal, é Bonner quem decide o que vai ou não para o ar
Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos -
atender ao Homer -, passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na
cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por
determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa
das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo
Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de
notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa
eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores
convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de
perto pelos visitantes.

Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas
"praças" (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são
analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio
e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas
eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.

A primeira reportagem oferecida pela "praça" de Nova York trata da venda de
óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da
Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da
"oferta" jornalística informa que a empresa venezuelana, "que tem 14 mil
postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de
combustível" para serem "vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40%
mais baixos do que os praticados no mercado americano". Uma notícia de
impacto social e político.

O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a
posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que
considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.

Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um
argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela
"praça" de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a
soltura de presos por falta de condições carcerárias.
A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às
ruas. "Esse juiz é um louco", chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra
sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito
menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em
cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos
pontos de audiência.

Notícia.
A decisão do juiz Livingsthon Machado, de soltar presos, é considerada coisa
de "louco"Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês - matéria
oferecida por São Paulo -, o comentário gira em torno dos prejuízos causados
ao órgão. "Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem
perícia, continuam onerando o INSS", ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.

De Brasília é oferecida uma reportagem sobre "a importância do superávit
fiscal para reduzir a dívida pública". Um dos visitantes, o professor Gilson
Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones
econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no
noticiário global.

Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com
a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se
diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a
passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam
em tempo real.
Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano,
transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.

E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela
noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas,
relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva
duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz
de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para
o limbo.

Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac - o centro de
produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em
Jacarepaguá - os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao
Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares
constrangidos.

* Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP
Hugo Schayer Sabino
Cel: (31) 8854 - 3269

1 Comments:

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11:51 AM  

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