segunda-feira, setembro 19, 2005

O mensalão e o anãozinho

Roberto Jefferson alardeou o famigerado mensalão, no melhor estilo “eu sou, mas quem não é?”. Não pôde provar o valor de R$ 30 mil nem o pagamento regular a cada mês. Um comentarista de rádio chegou a sugerir outro nome: “devezemquandão”, talvez mais apropriado para a picaretagem. O certo é que o ex-deputado acabou com a aura de santidade do Partido dos Trabalhadores, agora tão comprometido quanto a maioria dos outros.
A decepção com o PT, no entanto, não é nova para nós, servidores do Município de Belo Horizonte. Experimentamos há longos e sofridos anos o desprezo e as enrolações do governo da estrela agora manchada, o mesmo que, no plano federal, está desgastado, com a popularidade em baixa, metido em várias e tenebrosas denúncias.
Se, em Brasília, os governistas não vão bem, em Belo Horizonte, para a população em geral, tem lá seus méritos. Entre eles o de colocar todo mundo na sala de aula.
Explique-se: esse “todo mundo” se refere a alunos, pois os grandes teóricos e entusiastas da Escola Plural estão correndo do diário de classe. Logo eles, professores brilhantes, detentores das receitas mágicas, das fórmulas sensacionais, dos sábios e miraculosos conselhos para fazer essa moçada assimilar algum conhecimento, não querem saber de giz. Arrumaram uma boquinha em algum canto, alguma regional, alguma gerência, alguma secretaria. Viraram burocratas, enquanto nós, raladores de sala de aula, somos “burrocratas”, incompetentes, desatualizados, conservadores. Nosso “fazer pedagógico” (que expressão mais Gilberto Gil!) não condiz com os novos tempos, época do “direito a ter direitos”. Aos alunos só se concedem direitos; a nós, somente deveres e esmolas.
Portanto, é toda nossa a responsabilidade pela evasão, pela violência, pelo mau desempenho escolar e pelo fato de a escola pública em BH – mesmo com os melhores profissionais do país – não ter dado certo. Essas mentes iluminadas (que acabaram com a enfermidade, a repetência do aluno, mas exterminaram também o doente, o aluno com competência) não têm nada a ver com isso.
A última dessa turma do partido do suposto mensalão é o anãozinho, uma gorjeta anual de R$ 700,00 para o professor trabalhar cinco dias extras neste segundo semestre. Pensando superficialmente, é uma boa: R$ 140,00 por dia de trabalho. Essa gente esperta sabe: grande parte da categoria está na pindaíba, muitos acreditamos na promessa não cumprida da Administração de negociar um reajuste quando voltássemos da greve e, convenhamos, R$ 700,00 abonando quem ganha mil pratas ou um pouco mais é algo tentador. Mesmo que somente uma vezinha em um longo ano, daí o nome “anãozinho”.
Eu preciso, Sr. Prefeito, Sr.ª Secretária de Educação, dos R$ 700,00 do anãozinho. Mas não os aceito. Continuo acreditando em Vossas Excelências. Aguardo a negociação que não houve. Espero o reajuste a que faço jus (eu também quero ter direitos!) até a época de Papai Noel, em quem também acredito. Como a falecida Velhinha de Taubaté, creio ainda na total inocência do presidente Lula, nos nobres propósitos desse partido que enche os excluídos de ilusão e de assistencialismo; que entope a nós, ainda remediados, de embromação e de raiva; e afaga os especuladores, os valérios, os banqueiros e os empresários simpatizantes com os juros estratosféricos, a superortodoxia econômica, os “recursos não contabilizados” e o espetáculo do crescimento. Este último, se não fosse virtual e se tivesse chegado ao meu bolso, seria o único benefício da sinistra esquerda brasileira.
Há 10 anos sou professor da PBH. Ingressei ganhando cerca de sete a oito salários mínimos. Hoje são quatro. Daqui a uns cinco anos, talvez sejam dois ou três. Por isso sabem que preciso do anãozinho, mas sei que necessito mais é de vergonha na cara.
Abaixo o anãozinho! Temos que ter, uma vez por ano, é recomposição salarial. Está na Constituição, está na Lei Orgânica. Se viesse a receber o anãozinho, doaria para o caixa dois do PT, para evitar que um tucanóide qualquer tire os companheiros do poder. Afinal, como uma Regina Duarte às avessas, tenho medo: tucanos podem não ser confiáveis, podem ser elitistas, neoliberais, podem detestar o funcionalismo, podem desejar que o ensino público se exploda, pois seus filhos estão nas escolas bacanas. Têm, no entanto, o mérito da coerência.
Sou melhor que Roberto Jefferson. E não estou à venda. Tenho provas da existência do anãozinho de R$ 700,00. Saiu no Diário Oficial do Município. Denuncio essa humilhação pública. Isso é pior que se aliar a Valdemar da Costa Neto, é pior que condecorar Severino Cavalcanti, é pior que Delúbio Soares, é pior que Escola Plural. Não condeno, porém, os colegas que receberem o anãozinho em janeiro. Apesar de ser lambujem, é dinheiro honesto, ao contrário do que vários petistas receberam. Mas é nossa total rendição.
Finalmente, registro que, embora repudie o anãozinho, a culpa por essa situação também é nossa, dos professores municipais. Quem ajudou a colocar os petelhos no poder e elegeu os sindicalistas que ficavam enterrando FHC e agora enterram a nós mesmos? Por nossa causa, de derrota em derrota, a categoria não tem mais brio nem muito crédito junto à sociedade. Alguns não o têm nem nas Casas Bahia. Se aceitarem o anãozinho, o deslize é perfeitamente perdoável. Afinal, enquanto não chega o país de todos, salve-se quem puder.
Pedro Jorge Fonseca

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Pedi autorização para a publicação desse artigo que contempla muitos que não possuem a mesma verve literária demeu amigo, inclusive eu. Não aceito esmolas. Quero ser remunerada honestamente pelo meu trabalho. Não aceito penduricalhos no meu contra-cheque que podem ser retirados a qualquer momento ou "incorporados" ao salário e chamado de aumento como no Estado. Aliás, se continuarmos nessa passividade e cada vez chegando gente mais nova para a Rede, com medo do estágio probatório e aliados aos "fura-greve" e àqueles já famosos que votam pela greve e vão viajar, caminharemos a passos largos para aceitarmos qualquer coisa vinda da PBH porque aí teremos virado um professor qualquer. Não aceito isso. Trabalho muito, sou respeitada pelos meus alunos, tenho uma ficha limpa e não aceito ser tratada como uma qualquer. Estou cansada, doente e triste, mas estou lá, na sala de aula, substituindo dois, três professores faltosos, virei professora-polvo, mas o aluno tem a sua presença garantida mesmo não tendo professor dando aula para ele. Acho que abono não implica aumento de carga horária, já trabalhamos muito na escola e fora dela. A propaganda enganosa da PBH dá a entender que professor SÓ trabalha 4,5 por dia. Gostaria de saber quem está corrigindo minhas, redações, provas e trabalhos fora das 4,5 diárias.
Cristina Bicalho
EMPEP:EMPTP

8:27 AM  

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