segunda-feira, agosto 01, 2005

Eu choro, tu choras... E ele?

Belo Horizonte, 01 de Agosto de 2005

Jornal O Tempo - Opinião

Eu choro, tu choras... E ele?

JOSÉ MARIA THEODORO

Tão fácil quanto trocar bandeiras diante de órgãos públicos, técnicos gestores, articuladores da exploração da mão-de-obra mais em conta para se obter o máximo de lucro, incorporaram como marca registrada os discursos, as palavras de ordem, as manifestações daqueles que se colocam como oposição ao poder que emana dos mandatos.

Promovem, inclusive, assembléias, mas sem atos posteriores ou ocupações de prédios administrativos. Caminhando e cantando, seguindo..., bandeiras empunhadas à frente da população, exilando da memória Geraldo Vandré, esses sujeitos entoam um populismo disfarçado, um assistencialismo em forma de cumprimento dos compromissos assumidos.

Dizem-se a classe operária no poder. E reinventam a censura ao se colocarem como representantes. Consideram-se mártires, protagonistas, mas não esperem deles que hoje façam greve de fome ou qualquer outra greve. Censuram Paulo César Pinheiro no “Canto Brasileiro”: “Você corta um verso/ eu escrevo outro,/ você me prende vivo/ eu escapo morto,/ de repente olha eu de novo,/ perturbando a paz,/ exigindo o troco...” Vêem-se como “memória viva”. Pisam o túmulo de Vladimir Herzog, Betinho, Henfil, Chico Mendes, Vianinha e de muitos outros, para imprecar.

Comparem a famosa foto do filme “1900” de Bernardo Bertolucci: camponeses em caminhada de protesto, mulheres à frente, crianças no colo e, no outro extremo, legisladores engravatados em direção ao Palácio do Planalto.

Outra foto, do protesto de membros da atual base governamental quando ainda se colocavam como oposição, mostrando com o polegar e o indicador o tamanho do reajuste do salário mínimo.

Faz parte do jogo político a eleição de um “operário” e ex-sindicalista para a Presidência da República. Caso contrário, não se sentaria à mesa com um adversário para trocar idéias sobre como ocorreria a transição de governo, atrelando-se à mesma política que sempre atacou nos palanques.

Não apertaria a mão do presidente norte-americano contra o qual fazia duras críticas. Evitaria continuar tributando, cada vez mais, coerente com as idéias que defendia... Peremptório: “O partido será implacável na apuração da corrupção”.

Tanto nesse contexto quanto em outros de compra de votos por reeleições, o presidente é sempre candidato, mas não é só por essa razão que continua nos palanques e constantemente em campanhas publicitárias. Há a insistência em se dizer que faz parte do povo.

Antes de tudo, pela legitimidade, há de se inquirir quem integra CPIs e quem são os réus. Não estamos assistindo a um filme sobre traições à Casa Branca, com inimigos infiltrados no FBI, no qual em determinado momento o presidente chora.

Comparem: assistir aos discursos inflamados dos signatários dos princípios do partido, da governabilidade, da legalidade ou a encenação de um texto de Plínio Marcos, que mostra a fome e a miséria que não estão nos bastidores, mas no estômago, expressa nos olhos, marca indelével no corpo esquálido de milhões de brasileiros. “... Afasta de mim esse...” Cale-se, e apenas ouça e veja na telinha como se tudo estivesse acontecendo do outro lado do mundo. Por mais inacreditável que seja, está acontecendo e o que podemos fazer é aqui. E agora! Façamos.

Professor do ensino médio e fundamental, especialista em educação especial