segunda-feira, julho 04, 2005

O Rei Pelado

O Rei Pelado



Há rumores na cidade. Dizem, por aí, que no Reino do Pepinel, a mais alta Corte está todo mobilizada, ainda bestificada com os ventos tempestuosos e avassaladores que sopram do grande planalto central. O alto escalão e os puxa-sacos de plantão recorrem às mandingas, rezas bravas e patuás. Os barões, os fidalgos e os reinóis convocam os profetas, os sacerdotes e os visionários; abrem as gavetas, procuram pelos armários, eliminam documentos que possam incriminá-los. Acendem uma vela e fazem muita oração, queimam os arquivos, com o fósforo na mão. Rezam de noite e rezam de dia, que é para ver se espantam a tal profecia que desvenda o mistério. Todo cuidado é pouco, para não abalar o Império, ainda mais que agora, sopra o furacão Valério. A nobreza palaciana se assanha, e de cabelo em pé, "Será que a plebe descobre, de onde vem o capilé"? Por sobre os pilares de pedra, os neomortais com trajes do Olimpo, contemplam do alto, dos mais belos horizontes, o peso da lama que gruda no salto dos seus sapatos. Dançam para os xamãs, rogam pelos orixás, requisitam as boas fadas e até as bruxas más. É para ver se espanta os tremores e os vendavais, que fazem a besta nova, vislumbrar seus dias finais. O pânico amarela os de sangue azul. O reino se abala de norte a sul. Uns se afogam no atoleiro -gritando ser praga do tesoureiro. E o povo, convulsionado, com a força dos furacões, desmontará o castelo, tijolo por tijolo, coluna por coluna, pilar por pilar. Em marcha, os súditos avançarão para destronar o engodo e a falácia. Desvestir o rei. Arrancar-lhe suas pérolas, e o manto de pena de tucano. Negar aos corsários, o voto nos próximos anos. No reino do Pepinel, o povo já descobriu de onde vem o brilho do anel. É ouro de muitos quilates. Os trajes, os adornos são dos mais luxuosos e caros alfaiates. O trono, de madeira rara, retirada dos tronos de outros ditadores do passado. A coroa, cravejada de pedras preciosas, paga a conta de muitas propagandas enganosas. Dos baús, seguramente guardados, serão arrancados os lacres, e os segredos espúrios, enfim, estarão revelados. E não mais adiantará o rei, fazer jeito de mal, pois após o furacão, ficará só sua cara de pau.