quinta-feira, julho 28, 2005

DESABAFO DE ÍNDIO PRETO

Já se escreveu de tudo ou de quase tudo neste espaço virtual de debate e reflexão. Pessoalmente estou cansado de escrever e de gritar, para Deus e o mundo, sobre os desmandos de Pimentel e Cia.

Prometi a mim mesmo que não ia mais escrever, que ia entrar em uma fase de alienação. Que iria me dedicar simplesmente ao meu TCC (trabalho de conclusão de curso), à minha família e só...

Algo que ouvi em um tradicional aglomerado urbano de BH, de um líder comunitário daqueles a moda antiga, vindo do interior, operário aposentado e militante de esquerda, me fez “tomar da pena’’ para parturir novo texto:

“Nosso erro foi ter nossos companheiros no governo....nos cargos da PBH...gente antes de luta agora não quer mais andar de ônibus e foge do povo, foge da gente...a prefeitura está ALICIANDO o movimento popular... acabou com a FAMOB (*Antiga Federação de Vilas e Favelas), com a FAMEMG (*Federação Mineira de Moradores de Vilas e favelas) e com a UTP (*União dos Trabalhadores da Periferia)...um é gerente de OP, outro é porteiro de regional , ou agente comunitário de saúde, outro arranjou emprego pro filho, pra parente...” .

Em outros textos aqui neste espaço, denuncia-se também o aliciamento de parcela do movimento estudantil para bloquear a luta dos estudantes pelo passe-livre e a cooptação de ex-críticos da escola plural e ex-sindicalistas pela PBH para cargos de gerência. Tudo isto tem objetivo parecido: anular a luta da classe trabalhadora e recrutar mão de obra “ideologicamente qualificada” e nem tanto para o campo do governo.

O sistema funciona da seguinte forma: para os deputados, mensalão ou mesadão; para os pobres, bolsa escola, bolsa família, bolsa moradia; para os ex-críticos, ex-sindicalistas, cargos na PBH, de maior ou menor valor, de acordo com a fome ou voracidade do freguês. Alguns ganham de quebra 59% de reajuste e 14 salários. Instaura-se assim, como alguém escreveu, a política eleitoral auto-sustentável, que independe de eleições livres. Adeus democracia (que coisa mais antiga) bye bye República.

Esta dupla função do peleguismo brasileiro (tirar alguém do grupo adversário e leva-lo para o governo) me faz lembrar dos indígenas que serviam de guias para a cavalaria norte americana estadunidense nas guerras índias e durante boa parte do processo de colonização da América e do conseqüente massacre aqui praticado durante os séculos de dominação branca e européia.

O pobre pele-vermelha, esquecia sua origem e sua história, trocava a cultura, os amigos, seu povo, sua religião, por um punhal novo, uma faca, um paletó a moda dos “casacos azuis” de Custer. Mas a semelhança com os brancos terminava por aí: na hora da refeição ele ficava longe, debaixo de uma árvore roendo as partes duras de uma caça – e nunca tomava do bom vinho ou do uísque dos caras pálidas. Nas noites de insônia, pensava em quê? Se dormia, com o que sonhava o renegado, o não índio e não branco?

Lembram-se dos filmes de Wester de nossa adolescência/infância? Quantos de nós torciam pela cavalaria (inclusive eu).... agora que, creio, alcançamos certa maturidade, dá raiva ver, mesmo na tela da TV ou do cinema, o massacre dos pobres pelos ricos, dos índios pelos brancos, dos esfaimados pelos saciados e dos desapropriados pelos desapropriadores.

Raiva também é o que sentimos ao ver nossos ex-companheiros vestidos de “casacas azuis” com suas facas novas na cintura e assumindo postura e discurso de General. A defesa dos 59% de reajuste ainda não é feita em público, nem a dos 14 salários para o primeiro escalão. Disto eles ainda têm vergonha. È coisa feia, fede a mensalão e cuecas mal lavadas. Mas não se vexam de levantar a sua espada imaginária e defender aulas a todo custo e a não dispensa de alunos, como se nós trabalhadores defendêssemos o contrário. Falam de qualidade e tentam passar a idéia de que nós não a queremos, nem a defendemos...

Defendem também a negociação permanente e o diálogo eterno, conversa de doido com bêbado, sem pé nem cabeça, arremedo de democracia, onde o Casaverde e o Nogueira falam e todos devem, mais que concordar, aplaudir. Afinal, onde já se viu, querer sacrificar os serviços ao povo pobre da cidade por simples reajustes salariais?

Enquanto tentam sobreviver em seus cargos, continuam se achando não trabalhadores, mas gerentes, raça superior, iluminados e guias da educação: eles e elas saberiam o caminho, nós não. Fizeram seminários, congressos, cursos, discursos e aprenderam. Escreveram e leram os cadernos 1,2,3,e o 1000 e sei lá mais qual caderno da escola plural. Nós ainda não. Resta então a eles e elas, nos guiarem. É óbvio.

E resta-nos, além da raiva surda, esperar, que os enxotados guias índios, retornem. Os hoje G1, G2, G3, assessores, vereadores, deputados, serão enxotados do governo e de seus postos um dia, não duvidem. Lutemos agora, mas amolemos também nossas facas para escalpelá-los, um a um, quando for a hora, hora certa....hora da raiva...raiva de índio, de pobre, de negro fugido, que terá enfim sua vingança....

Professor Geraldinho Nyassunu
-direto da senzala-

* não lembrei o que significam as siglas, por isto tentei explicar o seu sentido.



Para meus irmãos, Roberto Kabongo Melquíades (Cadê você, cara?) e Marcelo Agostinho de Souza, com quem aprendi a problematizar o "real".

1 Comments:

Blogger W. F.C. said...

É isso aí, nosso pajé, não deixe de fazer seus feitiços porque ninguém pode lidar com o mundo oculto da política como você!

9:10 PM  

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