quinta-feira, junho 23, 2005

As " elites " e o governo Lula - PAULO NOGUEIRA

As elites e o governo Lula
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR."Não há fatos; só interpretações", dizia Nietzsche. Como interpretar então a crise política atual? (Peço desculpas, leitor, por trazer Nietzsche à baila num contexto tão miserável.)Setores do governo, do PT e da esquerda estão em pé de guerra e denunciam, inflamados, uma manobra golpista das elites conservadoras, que estariam procurando desestabilizar ou até derrubar o governo Lula.Faz sentido? À primeira vista, não. Afinal, que motivo teriam as elites conservadoras para derrubar um governo que já é deles? O leitor dirá: "Exagero!". Talvez. Mas convenhamos: o governo Lula é bastante bem-comportado e não oferece grandes perigos.Lula não é, e nunca pretendeu ser, um Kirchner ou um Chávez. O seu ministério conta, desde o início, com vários legítimos representantes das elites conservadoras. Os ministros da Agricultura e do Desenvolvimento, por exemplo. O ministro da Fazenda é petista, mas as políticas macroeconômicas e financeiras são, no essencial, uma cópia xerox das que foram adotadas no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. O regime monetário é o mesmo, o regime cambial é o mesmo, a política de geração de superávits fiscais primários é a mesma, a política de liberalização e abertura financeira é a mesma. Os principais integrantes da equipe econômica estariam perfeitamente à vontade como assessores de Pedro Malan ou funcionários do FMI e do Banco Mundial. Na verdade, alguns deles fizeram parte da equipe anterior ou passaram por programas intensivos de adestramento nas entidades multilaterais de financiamento sediadas em Washington.Também não se pode acusar o governo Lula de ter arriscado políticas de redistribuição da renda e da riqueza. As políticas sociais avançaram pouco, em parte por causa das restrições impostas pela área econômica do governo. O principal programa de distribuição de renda do governo é a política de juros do Banco Central, que transfere para os credores do Estado grande parte do que é arrecadado por meio de impostos. Ora, "elite conservadora" que se preza não rasga dinheiro nem denuncia políticas econômicas concentradoras de renda.Em resumo, como presidente, Lula nunca pisou nos calos dos donos do poder. A marca do seu governo é a contemporização. Há exceções, mas não vou citá-las hoje. Não quero comprometer ninguém. (Tenho a impressão de que, nas circunstâncias atuais, elogios de pessoas como eu mais atrapalham do que ajudam aqueles que, dentro do governo, ainda lutam pela mudança do país)É possível ou até provável que, em resposta à crise, o presidente procure reforçar o seu perfil "paz e amor". A saída do ministro José Dirceu, principal adversário da política econômica dentro do governo, pode ser interpretada como um passo nessa direção.O drama é que, a essa altura, ninguém controla mais nada. Como disse o ex-presidente Collor, CPI é como um cavalo bravio e fogoso, há muito tempo na estrebaria. Quando sai desembestado, não há quem segure.Collor fez de tudo para evitar o impeachment. Abandonou antigos companheiros, montou um ministério de notáveis (o chamado "ministério ético"), fez discursos indignados e poses de estadista, entregou os pontos na negociação da dívida externa, nomeou um ministro da Fazenda da estrita confiança dos mercados financeiros e dos interesses internacionais. De nada valeu.Não quero seguir com essas lembranças. Lula não é e nunca será um Collor. Mas a sua situação é muito difícil, como é óbvio.Ironicamente, talvez precise das elites conservadoras para sobreviver.
Paulo Nogueira Batista Jr., 50, economista e professor da FGV-EAESP

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Acredito que Lula não seja mesmo um Collor! Lula foi muito mais perspicaz ao enganar essa população!!! Ele vestiu a a roupa da vovozinha, convenceu a mocinha e o caçador, tomou posse de todos os sonhos da população de baixa renda e dos trabalhadores que ajudaram ele a pular a janela na expectativa de que ele fosse o salvador da pobre velha...

É nisso que dá acreditar em conto de fadas, mesmo! Desde o dia em que o principe virou sapo eu prefiro a realidade.

Cristiane

11:22 AM  

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