segunda-feira, maio 16, 2005

SOBRE A CARTA AOS EDUCADORES DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO

Caros (as) Colegas

Por favor leiam e divulguem a carta que escrevi fazendo uma avaliação do
que o prefeito de Belo Horizonte vem dizendo a respeito da greve dos
professores da rede municipal de ensino.
Obrigado.
Álvaro.




Belo Horizonte, 16 de maio de 2005

Prezados (as) Colegas,

A Prefeitura de Belo Horizonte afirmou em carta publicada no dia 10 de maio de 2005 que “tem se empenhado em construir junto com os profissionais da educação uma escola pública de qualidade para todos e tem feito um grande esforço na valorização da carreira do professor da rede municipal.” Afirma ainda que “As iniciativas de valorização vão desde a recomposição dos salários dos professores e a implantação de um plano de carreira a projetos de formação e de estímulo à qualificação profissional.”
Entretanto essas afirmações não revelam, aos educadores e à comunidade escolar, as contradições desse processo, com as quais é necessário lidar e que, portanto, é muito importante que sejam explicitadas. Os educadores vêm sofrendo duras perdas, entre as quais deve ser citada a mais recente, que é a imposição de um tempo rígido à escola, obrigando os professores a abandonarem uma organização do tempo escolar democraticamente construída ao longo desses anos de reflexão acerca da Escola Plural, e a assumirem o tempo escolar arbitrariamente definido pela SMED. Esta modificação do tempo escolar, ao meu ver, além de significar um aumento da carga horária do professor, principalmente revela-nos que os princípios que regem as decisões desta Secretaria de Educação não são de natureza pública e democrática, pois desconsideram a possibilidade de um diálogo com os educadores e a comunidade, parte interessada nesse processo. Ao invés disso, impõe-nos uma resolução com o poder de mudar o ritmo da vida que pulsa cotidianamente na escola e alega, para justificar tal imposição, exigências de uma legislação que já existia!
As perdas não se limitam a mudanças nos próprios princípios norteadores da Escola Plural, com relação ao respeito e a uma efetiva valorização da diversidade de opiniões frente à imposição de arbitrariedades, à construção de um falso consenso, mas vai além, negando-nos o direito à recomposição salarial de 35,82%. É preciso deixar claro que nos entendemos como seres políticos e enquanto tais não podemos aceitar a comparação com os salários (reconhecidamente miseráveis) de outras prefeituras. Será que por estarmos com um salário felizmente acima da média (conquistado, é importante que se diga, em duras batalhas já travadas), deveríamos ficar pensando que já somos privilegiados porque há tanta gente em situação pior? Isto significaria nossa alienação definitiva, pois seguindo esse raciocínio cruzaríamos os braços à espera de que chegássemos à situação de “coitados” para que alguém “BOM DE SERVIÇO” pudesse oferecer-nos mais algumas migalhas. Isso não acontecerá! Somos intelectuais e temos esperança, não aquela que nos paralisa, mas aquela anunciada pelo grande educador Paulo Freire, para quem “Não é, porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero.” Assim, sabemos que aguardar por um momento mágico para reivindicarmos o que, na verdade, constitui a garantia de manutenção de nossos direitos, seria esperar por um final anunciado, seria assumir a nossa alienação e entregarmo-nos ao processo mais amplo que constrói uma lógica privada de administração da Educação e suprime sua dimensão pública. Quanto a isto, acredito que é preciso lembrarmo-nos sempre de B. Brecht:
“Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento que só à humanidade pertence”.
É importante deixar claro que a deflagração da GREVE não representou uma decisão de momento, pois temos consciência da importância desse DIREITO. Não estamos brincando de fazer greve, mas aprendendo e ensinando aos que quiserem aprender que trata-se de uma manifestação carregada de significados e que, a partir dela, é possível colocarmo-nos como protagonistas da História e distanciarmo-nos dessa sociedade administrada que quer nos transformar em autômatos.
É fundamental deixar claro que ao fazer greve estamos apresentando aos nossos alunos e à sociedade, de maneira geral, o nosso testemunho de luta, uma lição de democracia de que tanto precisamos neste país. Assim, não estamos prejudicando os filhos dessa sociedade, muitos deles filhos de professores, mas convidando-os a uma reflexão sobre o processo de desvalorização e proletarização da profissão docente que vem sendo implementado nesta administração, ao contrário do que dizem os discursos.
Respondo então à Vetusta Comissão Permanente de Negociação Salarial que não aceitaremos as retaliações anunciadas como “cortar o ponto de quem faltar ao trabalho”, pois isto seria curvar a cabeça diante de gesto opressor, aceitando a transformação de um movimento reivindicatório justo, definido pela nossa categoria e garantido no artigo 9º da Constituição, num ato de irresponsabilidade qualquer.
Assistir e “aceitar” esse ataque a direitos tão duramente conquistados certamente não é boa pedagogia e não favorecerá a vida escolar. Pensando nisso convido nossos colegas que ainda não paralisaram suas atividades a ajudar-nos na luta pela garantia de uma educação pública, gratuita, de qualidade e que valorize o professor enquanto sujeito sócio-cultural.
Agradeço a atenção de todos e coloco-me à disposição para prosseguirmos nesta discussão.
PROFESSOR ÁLVARO
(José Álvaro Pereira da Silva)


“Pobre do povo que precisa de heróis” B. Brecht
“ Não é a violência de poucos que me assusta, mas o silêncio de muitos” Martin Luther King Jr.
“É melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda em vão, que sentar-se fazendo nada até o final. Eu prefiro na chuva caminhar, que em dias tristes em casa esconder. Prefiro ser feliz, embora louco, que em conformidade viver.” Martin Luther King

3 Comments:

Anonymous Frederico said...

Olá Alvaro,

Fiz uma leitura rápida da sua carta, sem me ater a qualquer análise gramatical/otrográfica e gostaria de lhe dizer que está muito boa. Acredito que a apresentação das idéias está clara e ela é bastante elucidativa em vários aspectos. Parabéns pela iniciativa.

10:12 AM  
Blogger Nós professores said...

Olá Álvaro !

Espero que com a sua exposição de idéias , a categoria possa refletir. e que os companheiros de profissão deixem de ser mesquinhos e engagem na luta , pois esta não deve ser uma luta de poucos , mas de todos .
Gostaria de lembrar a todos que estamos lidando com um partido que possui um histórico de greves ...Sendo todas elas marcadas pelo radicalismo.
Eu , pessoalmente ,acredito que se a categoria não se engajar e radicalizar - no sentido de aumentarmos o n° de companheiros e escolas paradas, envolvermos mais a sociedade e fizermos um trabalho amplo de mobilização , infelizmente estaremos perdidos .
Um abraço
Pedro - o rapaz que " Queria ir para a praia " risos !

8:50 PM  
Anonymous carina - EMTC said...

Alvaro, seu texto ficou ótimo!
Companheiro, a greve agora é pela
"dignidade", lembrar da truculência da prefeitura naquela´
5ª feira, me dá mais fôlego. Queria que muitos "fura Greve", estivessem ali naquele dia e sentissem de perto o pavor de sermos tratados como monstros.Os funcionarios nos olhavam com pavor, como se fóssemos atacá-los. Seria cômico se não tivesse sido
tão trágico. Chorei ... Chorei
de raiva, de indgnação, menos de
medo. Chorei, lembrando das "colegas" que continuam nas
escolas, como se não fizessem parte dessa rede. Concluindo companheiro, caminhar só é
possível caminhando ... A luta continua!
Carina - EMTC

10:33 PM  

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