domingo, maio 22, 2005

Pobre do povo que despreza seus professores

Pobre do povo que despreza seus professores[1]


Não é possível tornar este país democrático, humanizá-lo, com o tratamento desrespeitoso dado aos professores e aos educandos da Rede Pública de Ensino de Belo Horizonte. O tratamento a que me refiro é aqui entendido como o pagamento de salários aviltantes e a imposição arbitrária de um tempo escolar rígido, decidido em escritórios pelos burocratas da educação belorizontina.
Diante dessas imposições, que tornam o processo de ensino cada vez mais racional, no sentido daquela racionalidade industrial, expressa pelo processo taylorista de delegação de tarefas e, claro, redução da dimensão dos espaços de discussão, perde toda a sociedade. Perdem, principalmente, os professores “ordeiros”, que aceitam passivamente essas imposições e continuam em suas salas-de-aula, cuidando para que a organização do tempo escolar imposto seja cumprida e acreditando, talvez, que assim garantem que a pontuação de sua avaliação de desempenho fique na média ou mesmo acima dela, colocando-se numa posição “melhor” do que aqueles que, ao construírem um movimento de GREVE, “atrapalham” a organização escolar. Com sua omissão comodista esses professores preferem “deixar como está para ver como é que fica” e assim promovem uma grande perda também para os nossos alunos e seus pais e mães, pois quando acreditam que os professores em greve estão prejudicando-os, eles assumem o discurso fácil dos que nos oprimem e atacam cegamente aqueles que, com seu exemplo de luta pela construção de uma educação melhor, verdadeiramente contribuem para a construção de uma sociedade democrática.
As perdas não param por aí, mas vão além, pois com o tratamento arrogante e punições como o corte de salário e a substituição dos grevistas por pessoal contratado, a Secretaria Municipal de Educação desta capital ensina aos cidadãos de Belo Horizonte o medo (disfarçado de autoritarismo) de construir um diálogo com aqueles que querem exprimir sua posição contrária a que se trate a educação púbica como coisa privada.
Diante dessas práticas de arrogância que nos têm sido impostas mais intensamente depois que decidimos entrar em greve, pedimos à população de Belo Horizonte que nos apóie e que seja tolerante, não no sentido de aceitar esta situação adversa, mas no sentido anunciado pelo grande educador Paulo Freire, para quem “ser tolerante não é ser conivente com o intolerável, não é acobertar o desrespeitoso, não é amaciar o agressor, disfarçá-lo. A tolerância é a virtude que nos ensina a conviver com o diferente. A aprender com o diferente, a respeitar o diferente.”[2].
Convido a todos a dizer um não inequívoco ao desrespeito à vida e a assumir que a educação enquanto ato político não deve merecer migalhas de alguém que se diz “BOM DE SERVIÇO”. Como profissionais que amam a vida, devemos fazer um convite permanente e amoroso a todos os nossos colegas professores, para que assumamos nossa condição de seres políticos que entendem que a luta pela democracia é necessária, pois “não se recebe democracia de presente. Luta-se pela democracia. Não se rompem as amarras que nos proíbem de ser com uma paciência bem comportada, mas como povo mobilizando-se, organizando-se, conscientemente crítico.”[3]

PROFESSOR ÁLVARO - Escola Municipal Dora Tomich Laender
[1] Texto escrito no dia 22 de maio de 2005 para ser lido na assembléia dos professores da rede municipal de Belo Horizonte.
[2] FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: editora Olho d´Água, 1993. p.59.
[3] Op. Cit. Pág. 117.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Bravo,meu caro colega e amigo. Perfeito nas colocações,e creio que atuante diante de tanta arrogância e prepotência. Vamos dar um basta na esquerda burra.Já esta passando da hora de desmascarar esses burrocratas da PBH. E a sargentona pilar pilão, queremos a cabeça já.
Congratulações. O INDIGNADO

9:27 PM  
Anonymous Anônimo said...

TESTO MUITO BEM ELABORADO. PENA QUE NÃO CORRESPONDE À REALIDADE.

7:51 AM  
Blogger Nós professores said...

Pobre dos professores que prejudicam seus alunos com atitudes infantis, de pirraça!

10:30 AM  
Anonymous Anônimo said...

Ao contrário, "colega" aí de cima. Não se trata de pirraça. Trata-se de uma aula prática de política e cidadania, que ao que tudo indica você dá um banho só na teoria, pois ao desmerecer o seu "colega" chamando-o de infantil e pirracento demonstra a típica atitude de quem não sustenta uma boa discussão com argumentos.
Cristina EMPEP/EMPTP

12:31 AM  

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