terça-feira, maio 17, 2005

Aspectos pedagógicos da primeira semana de greve

Aspectos pedagógicos da primeira semana de greve.


Entramos em nossa segunda semana de greve. O envolvimento em um ato dessa natureza nos traz muitas ansiedades, expectativas, mas também, traz muitas contribuições, aprendizados e revelações. Ficamos ansiosos, pois estamos no centro do conflito. Em poucos momentos da vida, vivenciamos tão de perto a condição de sujeitos históricos. Saímos às ruas, paramos as atividades cotidianas e contestamos o poder. Aqui se confunde a ansiedade e o aprendizado. Vivenciamos a condição de cidadãos, no que esta palavra pode trazer de mais original. Somos os atores que, de repente, retomam a cena e fazem, podem ter certeza, o poder tremer. Engana-se quem pensa que não fazemos ´cosquinhas´ no poder de plantão. Incomodamos sim. Soltamos a voz frente ao silêncio comprometedor a que se entrega grande parte da cidade. Mais do que uma parada nas atividades rotineiras, o movimento traz grandes revelações, e se não tememos tanto, podemos lavar um pouco nossa alma.
O desenrolar do movimento, o confronto com a administração municipal e as táticas usadas pela Prefeitura, deixam bem claras a farsa eleitoral que gerou o dito ´governo popular' de Belo Horizonte. O momento da greve é de aprendizado, de reflexão e também de denúncia. A ferocidade com que a Guarda Municipal atirou-se sobre os professores durante uma manifestação nitidamente pacífica e a carta distribuída pela chamada "Comissão Permanente de Negociação Salarial", onde se lê que "está suspendendo as negociações até o fim do movimento grevista e que vai cortar o ponto de quem faltar ao trabalho" são uma demonstração claríssima da natureza política dessa administração.
A chuva de cassetetes no Hall de entrada da Secretaria de Administração revela a truculência do governo do Senhor Pimentel. A Guarda Patrimonial da Prefeitura mete a borduna no patrimônio mais valioso que tem essa rede municipal que é o patrimônio humano. Foi treinada para dar porrada. Não podemos mais nos esquecer que a Guarda, contratada pela Prefeitura, feriu alguns de nossos companheiros. O nosso movimento revela toda a arrogância do poder, além das suas contradições. Como pode uma auto-intitulada "Comissão Permanente de Negociação Salarial", em sua primeira manifestação pública, afirmar que "está suspendendo as negociações"? Se está suspendendo as negociações, não pode ser Comissão Permanente de Negociação. Outro engodo.
A ameaça de corte do ponto é, não só, uma tentativa do governo, em por fim ao movimento, mas a manifestação explícita do desejo de estrangulá-lo. Os movimentos populares organizados, as atividades sindicais, a sobrevivência de lideranças comunitárias independentes, parecem ser hoje, o pesadelo de uma administração que nasceu no seio das mobilizações populares. A tática da cooptação, como podemos perceber na fala de muitos ex-companheiros, a tática da porrada e do estrangulamento, fazem parte do receituário seguido pelo governo ao lidar com as demandas dos educadores da cidade. O movimento de uma semana trouxe esta clareza.
Outra grande revelação é a disposição da categoria em manter o movimento de pé. O resultado da Assembléia de ontem foi surpreendente. Quem percebeu a presença de muitos 'fura-greve' nesta Assembléia, poderia imaginar que o movimento, talvez, terminasse alí. Mas qual não foi a surpresa. A categoria, em peso, votou pela continuidade da greve. Um número muito reduzido votou contra. O ruído do metrô, que passava lá fora, a excitação de muitos companheiros e o calor excessivo pareciam querer nos colocar no meio de uma grande encruzilhada. Foi bonito. Uma força vivificante envolveu a categoria que resolveu dizer sim ao enfrentamento. Tomamos fôlego, levantamos a cabeça e demos uma demonstração de força. É claro que fazemos diferença. Aplicamos na cidade inteira a pedagogia da revelação e do desmascaramento.
O movimento é revelador por ser de conflito e aguçar as contradições. Contradições que também se manifestam em nosso meio. Um dos males mais graves e perniciosos que temos entre nossas Assembléias, que se espalham pelos cantos escuros do galpão, são vários colegas, pelegos declarados, fura-greves, traidores da nossa organização política, que nunca acatam uma deliberação sequer aprovada em Assembléia, mas que estão com suas caras-de-pau e seus dedos prontinhos para votar em qualquer ocasião. A tática utilizada, por muitos desses, que estão entre nós, é vergonhosa. Muitos deixam suas escolas, que continuam funcionando normalmente, assinam o ponto, e se dirigem para as Assembléias como representante de um setor qualquer de sua escola. É ridículo. Não sei como tem quem se preste a isso. Ou é muita ingenuidade, o que não acredito, ou muita má-fé e oportunismo. Os colegas parecem desprezar os princípios mais elementares de uma democracia e atiram no lixo um mínimo de ética que poderíamos esperar de um professor. O problema, gravíssimo, é certamente, de difícil solução. Mas é uma anomalia da nossa organização que não pode ser desconsiderada. Nessa semana, aprendemos algumas lições. Apanhamos, mas prosseguimos.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Devemos respeitar o direito dos colegas de não aderirem a greve. Meu receio é que os professores estejam, mais uma vez, sendo usados como massa de manobra política por dirigentes sindicais. Não podemos deixar de lado o fato de que o PT, hoje no poder, ontem atuava no movimento sindical e político " na defesa do interesse dos trabalhadores". Este mesmo PT hoje se mostra mais radical do que o antigo regime militar brasileiro, só falta solicitar a edição de ato similar ao famigerado AI 5. Me sinto como palhaço em meio a esta situação.

3:27 PM  
Blogger W. F.C. said...

Sem problemas, pode continuar trabalhando, eu não ligo. Afinal não temos motivo algum para estar parados. Um prefeito que nivela o reajuste de salário com a progressão de carreira, o qüinquênio, substituíndo uma por outra, o que não vai fazer de agora em diante. Realmente, estamos sendo manipulados, afinal, não temos o menor motivo para fazer greve.!!!!

10:01 PM  
Anonymous Anônimo said...

Reitero o meu comentário, em que pese a posição do colega.

10:21 AM  

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